Edição e resistência


Philippe Petit atravessa, na corda bamba, as Torres Gêmeas do World Trade Center, 1974

Boa tarde a todas e a todos.

Primeiramente, queria começar a conversa dizendo: Fora, Temer!

Segundamente, é uma alegria muito grande estar aqui conversando com vocês, pessoas boníssimas que foram arrebatadas por esse vício e esse amor que é a edição de livros.

Fico muito feliz também por estar aqui na Uerj. Tenho lido no Facebook manifestações de apoio à universidade. São os muitos intelectuais e profissionais talentosíssimos que se formaram aqui. É uma barbaridade a sabotagem que o governo estadual — neste momento, na figura de um mineiro, Francisco Dornelles, primo de outro mineiro, Aécio Neves — vem fazendo contra esta instituição e toda sua rede — que inclui, entre outros, o Hospital Pedro Ernesto, referência em várias especialidades e importante núcleo nacional de formação de profissionais na área médica e de atendimento à comunidade.

Agradeço aos estudantes e aos profissionais da Uerj que, mesmo sem receber há meses, estão na luta — o que inclui a realização deste evento.


Mas então vamos falar de linhas de resistência. Porque até agora não toquei nesse assunto, não é mesmo?


Levei um bom tempo para entender que diabos era isso de “linhas de resistência” e por que fui chamada para esta mesa.

Meu primeiro pensamento foi: uma editora resiste pelo catálogo. Mas sou editora de produção, não faço aquisições, então não tenho o que dizer. E depois pensei melhor: bom, tenho o que dizer, mas é claro que é um grande engodo falar em resistência quando se trabalha em um dos maiores grupos editoriais do país.

Então eu respirei fundo e voltei a pensar: o que é “resistir” hoje dentro de uma editora, além de construir um catálogo que preze pelo pensamento crítico?


Passei semanas pensando no título Teste de resistores, que é um dos melhores livros de poesia que li nos últimos tempos, de uma poeta formada aqui na Uerj, a Marilia Garcia. Nesse livro a poesia é posta à prova de uma tal maneira que a gente acha que ela não vai aguentar. E, espero não estar dando spoiler, mas a poesia aguenta, sim.

Poste madrilenho, 2007

Bom, para provar que não sou um engodo, devo dizer do lugar onde eu falo. Sou mineira. Eu me formei em Letras para fazer livros. No meio do caminho me perdi, acabei dando aula. Mas também me encontrei: tive um grupo de poesia incrível, chamado Poesia Hoje (que também foi uma coleção da Civilização Brasileira nos anos 1950/60, mas eu não sabia). E foi lá, com esse grupo de poesia, onde fiz amigos que são minha família até hoje, que aprendi o que é resistir.

Nessa época li um livro da Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas. Há um capítulo “Poesia e revolução”, em que ela diz algo muito vivo, que trouxe para compartilhar com vocês. Mas como sou poeta e editora, e não consigo ser uma coisa ou outra, vou alterar as palavras “poesia” por “edição” e “escritor” por “editora” (como substantivo que designa a pessoa que trabalha com edição, não a casa publicadora). E vamos ver o que nos provoca essa tradução kamikaze:

E porque busca a inteireza, a edição é, por sua natureza, desalienação, princípio de desalienação, desalienação primordial, justiça primordial. […]

Sabemos que a vida não é uma coisa e a edição outra. Sabemos que a política não é uma coisa e a edição outra. […]

É a edição que desaliena, que funda a desalienação, que estabelece a relação inteira do homem consigo próprio, com os outros e com a vida, com o mundo e com as coisas. E onde não existir essa relação primordial limpa e justa, essa busca de uma relação limpa e justa, essa verdade das coisas, nunca a revolução será real.

[…]

Princípios intrínsecos à condição de editora:

– Lutar contra a demagogia que é a degradação da palavra […];

– Lutar contra os slogans […]

Nessa época do Poesia Hoje, também li um texto do Gilles Deleuze, “A literatura e a vida”, do livro Crítica e clínica. E aqui faço um exercício similar ao que fiz com a sra. Sophia, trocando “literatura” por “edição”, “escrever” por “editar” e “escritor” por “editora”. E este é trecho do artigo “A edição e a vida”:

Não se edita com as próprias neuroses. A neurose, a psicose não são passagens de vida, mas estados em que se cai quando o processo é interrompido, impedido, colmatado. A doença não é o processo, mas a parada do processo, como “no caso Nietzsche”. Por isso a editora, enquanto tal, não é doente, mas antes médica, médica de si própria e do mundo. O mundo é um conjunto de sintomas cuja doença se confunde com o homem. A edição aparece, então, como um empreendimento de saúde: não que a editora tenha forçosamente uma saúde de ferro […] mas ela goza de uma frágil saúde irresistível, que provém do fato de ter visto e ouvido coisas demasiado grandes para ela, fortes demais, irrespiráveis, cuja passagem a esgota, dando-lhe contudo devires que uma gorda saúde tornaria impossíveis. Do que viu e ouviu, a editora regressa com os olhos vermelhos, com os tímpanos perfurados. Qual saúde bastaria para libertar a vida em toda parte onde esteja aprisionada pelo homem e no homem, pelos organismos e gêneros e no interior deles? […] A saúde como edição, como editar, consiste em inventar um povo que falta.

Interior/Composition, de Carin Blücher

Como disse, não sou a editora que pensa o catálogo — e o catálogo é, para mim, o DNA de uma casa publicadora. Sou editora de produção. Sou operária do livro — e sempre penso que deveria trabalhar de coturno e capacete de proteção. Ou então com um avental, Crocs branco e redinha de cabelo, se preferirmos uma imagem em voga nesse mundo Masterchef, de alguém colocando a mão na massa, na cozinha do editorial.

Trabalho em dois selos que pertencem ao Grupo Editorial Record: Civilização Brasileira e Paz e Terra. Trabalham comigo cozinheiros excelentes, Ana Clara Werneck e Fábio Martins, e nossa aprendiz, Flaviane Santos. Quem nos rege é a editora executiva, Andréia Amaral.

A Civilização Brasileira e a Paz e Terra têm uma história longa, que passa pela vida do editor Ênio Silveira. Vou contá-la o mais rapidamente possível, porque é algo que vocês podem encontrar nos livros. Quem quiser saber mais, dê uma olhada em O livro no Brasil e sua história, de Laurence Hallewell.

Então vamos lá.

“Quem mal lê mal fala, mal ouve, mal vê”, lema da Civilização Brasileira, na fachada da editora, incendiada durante o governo dos generais

A Civilização Brasileira foi fundada em 1929 por Getúlio M. Costa, Ribeiro Couto e Gustavo Barroso. Três anos depois, em 1932, foi comprada por Octalles Marcondes Ferreira, e passou a ser a sede carioca — e livraria — da Companhia Editora Nacional. O selo Civilização Brasileira passou a publicar prioritariamente títulos adultos da companhia. Entre 1932 e 1944 o selo publicava também em Portugal, então interessado nos títulos brasileiros.

Octalles foi sócio de Monteiro Lobato em 1925. Juntos, expandiram a Cia Gráfico-Editora Monteiro Lobato e fundaram a Companhia Editora Nacional, então o maior grupo editorial do país. Em outubro de 1929 Lobato deixou a sociedade.

Em 1943, Ênio Silveira, passou a integrar a Companhia Editora Nacional. Dois anos depois tornou-se diretor editorial. Em 1951 passou a dirigir a Civilização Brasileira, que funcionava mais como livraria do que como editora.

Ênio foi fortalecendo o catálogo da Civilização Brasileira. E não só estimulou a produção de autores nacionais como trouxe grandes autores estrangeiros. Por exemplo, em 1959, quando Nabokov não era conhecido no Brasil, Ênio imprimiu — e vendeu — 60 mil exemplares de Lolita, que se esgotaram em 10 meses. Uma tiragem de livro literário extremamente otimista — até para os dias de hoje.

Em 1963, Octalles, que era sogro de Ênio e avesso à linha editorial mais à esquerda — Ênio inclusive fazia parte do Partido Comunista Brasileiro –, passou ao genro a propriedade da editora. Chegou a dizer que fez isso porque tinha um genro muito bom e não queria ter desavenças com ele.

A partir daí a imagem da editora foi completamente reformulada, com o artista plástico Eugênio Hirsch — que já fazia capas para a editora. E a intensificação de publicações de não ficção nas áreas de ciências humanas.

O editor foi um forte opositor do regime ditatorial. Foi preso cinco vezes entre 1964 e 1970 — uma delas por editar a coleção Cadernos do Povo Brasileiro (publicada de 1962 a 1964), com livros que tratavam de temas econômicos, sociais e políticos, destinados à classe trabalhadora (o primeiro volume, “Que são as ligas camponesas?”, era assinado por Francisco Julião). A publicação foi proibida e descontinuada.

Outras publicações de resistência pensadas por Ênio Silveira foram a Revista Civilização Brasileira, dirigida por Moacyr Félix e Dias Gomes e fechada em 1968 após o Ato Institucional número 5; o jornal semanal Reunião; e a revista Política Externa Independente, que foi dirigida por Celso Furtado. Em 1978, lançou Encontros com a Civilização Brasileira, com Moacyr Félix.

Em 1966, Ênio fundou a revista Paz e Terra, sob direção de Waldo Aranha Lenz César — pai da poeta Ana Cristina Cesar –, inspirada pela encíclica papal Pacem in Terris. O objetivo era divulgar ideias ecumênicas progressistas, e acabaria por lançar no Brasil a Teologia da Libertação. Com o tempo, a Paz e Terra passou a publicar livros, constituindo uma nova editora. Em 1975, foi vendida a Fernando Gasparian. Passaram a fazer parte do conselho editorial Fernando Henrique Cardoso e Antonio Callado.

Por diversas vezes Ênio foi coagido a deixar a direção da Civilização Brasileira. Em 1970 teve livros confiscados, o escritório da sua editora incendiado e seus direitos políticos cassados. O governo do general Costa e Silva pressionou os bancos a não liberarem crédito para a editora.

Entre grandes títulos de não ficção de esquerda publicados por Ênio, estão: O capital, em tradução direta do alemão, por Reginaldo Sant’Anna, que ainda consta no catálogo atual da Civilização Brasileira; e Cartas do cárcere, de Antonio Gramsci, em tradução de Noenio Spinola.

Na década de 1980, com a abertura política, a Difel passou a colaborar com a Civilização Brasileira, e um banco de capital português e uma pessoa jurídica estrangeira adquiriram 90% do capital da Civilização Brasileira.

Ênio da Silveira faleceu em 1996. Em 2000 a Civilização Brasileira e a Difel foram adquiridas pelo Grupo Editorial Record. Nessa época a editora executiva era Luciana Villas-Boas. Em 2012 Luciana saiu do Grupo Record. Andréia Amaral assumiu o posto na Civilização Brasileira e recebeu a Paz e Terra, recém-chegada ao Grupo.


Gosto muito de pensar também a edição como conversa socrática, como o mexicano Gabriel Zaid propõe em Livros demais!. Livros podem conduzir os leitores a processos de reflexão e descoberta dos seus valores. E se “o autoritarismo é o empobrecimento dos atos políticos pela interrupção do diálogo”, como Marcia Tiburi afirma no início de Como conversar com um fascista, a edição é o contrário disso.

Cena do filme “A hora da estrela”, de Suzana Amaral

Em 2010, eu era assistente editorial na Civilização Brasileira. Estava meio sem acreditar na vida, meio Macabéa: editar serve pra quê? Livro serve pra quê? Lembro de ter escrito emails a algumas pessoas, dividindo o questionamento. A lendária chefe de revisão da Record, Fátima Barbosa, a quem devo tudo que sei sobre edição de texto, me respondeu. Não lembro exatamente o que ela disse, mas ela me passou um sabão com muita elegância — e com uma calma rara: “Lelê, deixe de história. Se não fosse pelos livros, eu não tinha saído do sertão da Paraíba.” Pois vocês imaginem que foi isso mesmo que aconteceu com a Fátima. Saiu da Paraíba para vir estudar letras na Uerj. Morou um tempo na Maré. Depois começou a estagiar na Ediouro; pouco tempo depois foi para a Record — e ali foi se formando, e depois formando profissionais.


Eu gosto muito de pensar o afeto como linha de resistência.

O afeto com o texto — será que é mesmo necessário estandartizar todo o texto que chega em nossas mãos? Ou é possível, ainda, deixar a voz do autor se sobressair? Eu leio alguns livros com uma limpeza tão profunda que me faz lembrar os restauradores do Teatro Municipal aqui do Rio — que deixaram o dourado da cúpula mais brilhante que a original. E também me pergunto até que ponto devemos seguir “os deles e os delas da tevê Globo”.

Acredito que devemos tratar com afeto com os profissionais com os quais lidamos — e também os leitores. E aqui há um trecho que recuperado após a quebra a privacidade dos diários do bailarino Nijinsky, publicados pela Francisco Alves na década de 90:

Criei o hábito de dizer “bom dia” a todas as pessoas, sem as conhecer. Compreendi que todas as pessoas são as mesmas. Sempre digo, mas não me compreendem, que todo mundo tem um nariz, olhos etc., por isso somos todos os mesmos. Com isso quero dizer que a gente deve amar todo mundo.

O cotidiano já é muito massacrante. Não é porque está numa empresa que preza a manutenção de cargos hierárquicos que você precisa marcar isso em todas as relações profissionais.

Eu gosto muito do que a Boitempo faz: títulos lançados, formas de divulgar o conteúdo. Gosto como a editora consegue mobilizar leitores e colaboradores.

Gosto também do trabalho que o Thadeu Santos e o Vinicius Gonçalves estão fazendo com o KZA1. Entrem na página da editora, no Facebook, e vejam as traduções deles. As últimas são “Autonomia crítica do artista”, do poeta mexicano Ulisses Carrión, e cartas entre ele e Octavio Paz.

Meu coração se enche de esperança quando vou a feiras de publicações independentes — A Bolha, editora de que sou fã (e que está com crowdfunding aberto), organizou várias aqui no Rio. Ali tem mais vida do que toda a Bienal e a Flip juntas.

Gosto muito do trabalho da Cartonera — que nasceu na América do Sul, com suas capas feitas com papelão, sempre ligadas a algum projeto de desenvolvimento humano e social.

Adoro o trabalho da Liga Brasileira de Editoras. Gosto muito da ideia de editores independentes se unirem em torno dos seus interesses e dos da bibliodiversidade.

Índia Tuíra, caiapó, sobre a construção do complexo hidrelétrico do Xingu, 1989.

Espero que todos os editores — pequenos e grandes — percebam que é necessário começar a discutir ética na edição de livros. Gostaria também que jornalistas especializados entrassem nessa. E não me refiro apenas a plágio, traduções duvidosas, referências bibliográficas inexatas e incoerência externa. E também não somente a respeito de publicação conteúdo imoral, como o Minha luta, de Adolf Hitler. É necessário começar a falar de leis trabalhistas, compromisso ambiental, ética empresarial. Igualdade de gênero e de raça.


E para me despedir e retomar o valor da resistência intelectual, como a que impulsionou o trabalho de Ênio Silveira, deixo este poema, do catalão Joan Brossa. Foi publicado na primeira revista Cult que li, em 1998. Naquela época eu não tinha o hábito de anotar o nome do tradutor — perdoem-me.

POEMA

A Pepa

É verdade

que não tenho dinheiro

e evidente que a maioria das

moedas é de chocolate;

mas se você pega esta folha,

dobra de comprido

em dois retângulos,

depois em quatro,

faz então um vinco

em diagonal nas quatro

abas e separa

em duas partes,

obtém

um pássaro que moverá as asas.

Texto apresentado na mesa Linhas de resistência, no Ciclo Mercado editorial: inserção, atuação e análise, na Uerj, em 19 de julho de 2016.

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